Cerca de 94%
dos dados genômicos do mundo usados atualmente para treinar inteligências
artificiais (IA) vêm de pessoas com ancestralidade europeia. Quando esses
sistemas médicos importados são aplicados sem filtros na saúde pública do
Brasil, eles falham em diagnosticar com precisão a população. O alerta crítico
abriu os debates da segunda edição da Conferência IA 360, realizada no Biopark,
em Toledo (PR), acendendo uma luz amarela sobre a urgência de
"tropicalizar" o desenvolvimento tecnológico no país.
A discussão,
trazida pela pesquisadora Ana Carolina Ricciardi (Grupo Fleury / A.C. Camargo
Cancer Center), ganhou novos contornos ao citar um exemplo que afeta
diretamente o Paraná: a Síndrome de Li-Fraumeni (doença genética rara e
hereditária caracterizada pela alta predisposição ao câncer). Enquanto a
condição é considerada rara no resto do planeta (afetando uma em cada cinco mil
pessoas), ela atinge um em cada 472 recém-nascidos no Sul e Sudeste do Brasil
devido a uma variante tipicamente brasileira.
Os
algoritmos globais padrão não estão habituados a detectar esse risco local.
"Precisamos de algoritmos que entendam o DNA brasileiro, sob o risco de
automatizarmos a invisibilidade da nossa própria população", destacou a
pesquisadora, defendendo que o avanço científico precisa caminhar lado a lado
com a responsabilidade ética e a soberania de dados nacionais.
Da
ciência ao chão de fábrica
O painel
sobre a urgência de contextualizar a IA na saúde foi o ponto de partida para os
dois dias de discussões profundas promovidas pelo evento, que se consolidou
como o epicentro da tecnologia aplicada na América Latina. Se por um lado
cientistas como Alejandro C. Frery (Victoria University of Wellington, da Nova
Zelândia) demonstraram como a mesma matemática usada para mapear florestas por
satélite pode ser refinada para detectar doenças humanas raras; por outro,
trouxe o pragmatismo econômico para as empresas e para o agronegócio.
O destaque
corporativo do segundo dia de palestras foi a apresentação dos chamados
"sistemas agênticos" (arquiteturas de IA em que múltiplos agentes
autônomos executam processos complexos) em painéis com a gigante de tecnologia
NVIDIA e a Rankdone. A discussão demonstrou que a nova onda da IA vai muito
além dos robôs de conversa (chatbots) comuns: o mercado agora adota agentes
autônomos capazes de tomar decisões para otimizar o faturamento. No bloco
focado em Agronegócio e Cooperativismo, especialistas da América Latina
mostraram como essas ferramentas já preveem cenários de mercado e administram
cadeias logísticas complexas, como a produção de grãos e a piscicultura,
pilares da economia do Oeste do Paraná.
Para
Leonardo Tampelini, coordenador do IA 360, colocar em evidência tanto os desafios
éticos da saúde quanto o impacto financeiro das empresas reforça o propósito
central do fórum. "Conseguimos cumprir a nossa meta de eliminar a
distância entre a bancada acadêmica e o empresário. O que vimos não foi teoria
abstrata, mas caminhos reais para gerar riqueza, poupar custos e salvar vidas
por meio da tecnologia aplicada à nossa realidade", avalia.
Com o
encerramento desta edição, a Faculdade Donaduzzi, que conta com curso
presencial de Bacharelado em IA com nota máxima no MEC, reforça o Paraná como
um polo gerador de tecnologia consciente, registrando índice superior a 90% de
empregabilidade e de inserção de seus alunos no mercado antes mesmo da
formatura.

